Depois de décadas dedicadas à segurança pública, especialmente no enfrentamento à violência contra mulheres e adolescentes, a delegada Clécia Vasconcelos inicia um novo capítulo da vida. A aposentadoria da Polícia Civil marca o encerramento de uma trajetória que, segundo ela, foi construída com empatia, compromisso social e proximidade com a população. Agora, a ex-delegada pretende concentrar esforços na advocacia, na carreira acadêmica e em projetos sociais.
"Não deu para viver a aposentadoria ainda", brincou. "Estou dando sequência à minha agenda, continuo dando aulas nas faculdades e agora é um novo ciclo. Vou me dedicar à advocacia, continuar me dedicando aos projetos sociais que gosto muito e me sinto muito abençoada por fechar esse ciclo."
Ao fazer um balanço da carreira, Clécia preferiu não falar em legado, mas destacou a relação construída com os moradores de Feira de Santana.
"Não me acho no direito de dizer que deixo um legado. O que posso dizer é que sou muito grata a Feira de Santana pelo acolhimento. Aprendi que muitos se apropriam da pauta, da mídia, mas poucos se apropriam da causa. Quando a gente faz as coisas com o coração, a sociedade sente a verdade e isso cria uma identidade."
Durante a entrevista, ela lembrou que um dos maiores desafios da carreira foi assumir a Delegacia para o Adolescente Infrator (DAI), após anos de atuação na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam). Segundo Clécia, a mudança ampliou sua visão sobre a complexidade da violência.
"Na Deam eu fortalecia mulheres para romperem o ciclo da violência. Na DAI encontrei mães vítimas dos próprios filhos envolvidos com drogas, facções criminosas ou violência dentro de casa. É uma realidade muito mais complexa. Foi um aprendizado que Deus colocou no meu caminho para completar esse ciclo."
Ao analisar o aumento dos índices de violência, apesar do endurecimento das leis, Clécia afirmou que o problema vai muito além da legislação penal.
Ela destacou que as redes sociais, quando utilizadas sem controle, e o avanço do consumo de drogas são dois fenômenos que influenciam diretamente o crescimento da violência.
"As redes sociais são um caminho sem volta, mas precisam ser usadas com responsabilidade e fiscalização. Além disso, o uso de entorpecentes está destruindo famílias em todas as camadas da sociedade."
Para a ex-delegada, também é necessário resgatar valores familiares e fortalecer políticas públicas voltadas para a prevenção.
"A família continua sendo a base da sociedade. Parece um discurso antigo, mas é necessário retomarmos valores que preservem a dignidade da pessoa humana."
Clécia também criticou o que chamou de uso simbólico do Direito Penal e afirmou que apenas aumentar penas não tem sido suficiente para reduzir crimes como o feminicídio.
"Não sou adepta do endurecimento das leis como solução. O feminicídio teve a pena aumentada e os números continuam crescendo. Precisamos de políticas públicas e criminais realmente eficazes, e não de medidas apenas para atender discursos políticos."
Ao recordar momentos inesquecíveis da vida policial, Clécia afirmou que as maiores lembranças não estão nos cargos ocupados, mas no reconhecimento espontâneo das pessoas.
Ela contou que uma das experiências mais marcantes aconteceu durante um projeto social realizado no bairro Campo Limpo. Na ocasião, uma mãe a reconheceu como a delegada responsável pelo levantamento cadavérico do filho assassinado.
Segundo Clécia, naquele momento compreendeu ainda mais a dor das famílias atingidas pela violência.
"Cada levantamento cadavérico que eu fazia, pensava na mãe. Mãe nenhuma escolhe o caminho errado para o filho. Muitas vezes julgamos apenas o adolescente envolvido no crime, sem olhar para a realidade de abandono, ausência familiar e vulnerabilidade em que ele cresceu."
A ex-delegada ressaltou que a convivência diária com pessoas em situação de vulnerabilidade foi o que mais transformou sua visão de mundo.
"Ser policial me fez lidar com os vulneráveis. Trabalhei em várias regiões da Bahia, mas foi esse contato que gerou minha verdadeira identificação com a profissão."
Sem olhar para trás, Clécia diz que encerra a carreira policial com gratidão e pronta para novos desafios.
"Sou uma mulher que segue em frente. Não cultivo mágoas. Só damos aquilo que temos. Eu só tenho a agradecer. Até aqui o Senhor nos ajudou."
Mesmo aposentada da Polícia Civil, ela continuará atuando como professora universitária, advogada e participante de iniciativas sociais, levando adiante a experiência acumulada ao longo de uma carreira marcada pelo contato direto com as vítimas da violência e pela defesa da dignidade humana.
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