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Sapateiros preservam tradição e memória do comércio de Feira de Santana

Ofício atravessa gerações e continua garantindo o sustento de trabalhadores no centro da cidade

22/09/2026 18h07
Por: Carlos Valadares
Foto: Onildo Rodrigues
Foto: Onildo Rodrigues

Em meio às transformações do comércio e ao avanço da industrialização dos calçados, uma profissão tradicional continua presente no centro de Feira de Santana: a de sapateiro. Na praça onde os profissionais trabalham, o conserto de calçados ainda representa fonte de renda e também uma forma de preservar parte da memória comercial da cidade.

Entre os trabalhadores está Carlos Marcos Oliveira Juno, conhecido como Binha Sapateiro. Filho de São Paulo, um dos profissionais mais antigos do local, Binha conta que começou a aprender o ofício depois de trabalhar no centro da cidade e pedir uma oportunidade ao pai.

“Eu trabalhava no centro, pegando carrego, e nessa época pedi a ele para trabalhar. Ele me deu a oportunidade e fui aprendendo. Hoje estou aqui”, relata.

Segundo Binha, a procura pelos serviços continua garantindo o sustento dos profissionais. “É daqui que a gente tira o pão de cada dia. Não só eu, mas os amigos também. Dá para levar o pão para casa, faturar uma grana e viver tranquilo”, afirma.

Para ele, a modernização da praça também representa uma melhoria nas condições de trabalho. Entre as intervenções já realizadas, ele destaca a instalação de banheiros e melhorias na iluminação.

“Melhorou muito através dos banheiros, porque a gente tinha dificuldade. O ponto de luz também. Vai ficar bom”, disse.

Outro personagem dessa história é Paulo Araújo Beirão, que trabalha como sapateiro no local desde a década de 1960. Ele conta que chegou a Feira de Santana em 1962 e começou a atuar na profissão pouco tempo depois.

Paulo lembra que, quando iniciou, não sabia sequer pregar um sapato. Foi com a ajuda de outros profissionais que aprendeu as técnicas e desenvolveu a atividade.

“Quando cheguei nessa atividade, não sabia dar um prego no sapato. Fui procurando os colegas, conversando e aprendendo. Graças a Deus, estou aqui até hoje”, conta.

Ao longo de décadas, ele acompanhou as mudanças no comércio e na própria praça. Apesar dos avanços tecnológicos e da industrialização do setor, afirma que o trabalho artesanal continua tendo espaço.

“Todo mundo aqui é sapateiro. Não tem um melhor do que o outro. O que existe é dedicação ao trabalho”, destaca.

Paulo também vê com expectativa as melhorias anunciadas para a praça e afirma que a organização do espaço pode trazer mais conforto para os trabalhadores.

“Graças a Deus que agora fizeram uma melhoria para a gente. Cada um vai ficar no seu lugar trabalhando. Para mim, é um conforto especial”, afirma.

A continuidade da profissão também já pode ser vista entre os trabalhadores mais jovens. Lenilson Silva Santos, por exemplo, começou a aprender o ofício ainda adolescente, quando morava em Salvador. Aos 13 anos, descobriu interesse pela atividade e, posteriormente, veio para Feira de Santana.

Há quatro anos, trabalha ao lado de Paulo e afirma que aprendeu boa parte da prática com ele.

“É uma profissão que nem todo jovem quer, mas eu me apaixonei. Quando vim para Feira, conheci ele, que abriu as portas para mim e me deu um espaço para trabalhar. A maioria da prática eu aprendi aqui”, relata.

Para Lenilson, fazer parte da nova geração de sapateiros significa contribuir para que a atividade não desapareça.

“É importante manter essa profissão viva, porque é uma profissão antiga. Espero que, daqui para frente, ela continue sempre”, afirma.

Entre ferramentas, linhas, solas e máquinas de costura, os sapateiros seguem trabalhando diariamente no centro de Feira de Santana. Mais do que consertar calçados, eles preservam histórias, relações de trabalho e uma tradição que atravessa gerações.

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