O retorno de O Diabo Veste Prada 2 e Michael aos cinemas ressuscitou uma cultura que vai além da tela: a de vestir-se conforme o visual padrão do universo dos filmes. Em apenas duas semanas, O Diabo Veste Prada 2 ultrapassou a marca de R$ 100 milhões em bilheteria no Brasil em 2026, enquanto Michael ocupa a segunda colocação no mesmo ranking. Mais do que sucesso de público, os lançamentos reacenderam um fenômeno que já havia dominado as redes sociais durante a estreia de Barbie: espectadores transformando o cinema em passarela.
Saltos altos, looks monocromáticos, bolsas sofisticadas, ternos inspirados no universo fashionista de Miranda Priestly ou jaquetas, luvas e referências ao rei do pop. Nas filas das salas de cinema, o figurino passou a fazer parte da experiência cinematográfica. Mas de onde vem esse desejo coletivo de se vestir inspirado nos personagens?
Para a docente multidisciplinar e estilista Alcimara Braga, do curso de Design da Estácio, o cinema sempre teve forte influência sobre o comportamento e o consumo. “Os filmes funcionam como espelhos e também como motores de desejo. O figurino traduz arquétipos e estilos que acabam sendo incorporados no cotidiano, seja pela indústria da moda que recria tendências, seja pelo público que se inspira diretamente nos personagens. Os filmes funcionam como difusores de moda e de tendências”, ela explica.
O chamado “efeito cinema” não é novidade, mas ganhou força com a cultura digital e o compartilhamento em massa nas redes sociais. Produções icônicas frequentemente deixam marcas no vestuário de diferentes gerações. Assim como Matrix popularizou o couro preto e os óculos futuristas e Barbie trouxe o pink como símbolo de empoderamento lúdico, O Diabo Veste Prada consolidou a moda como linguagem de status e poder. O cinema cria narrativas que a moda traduz em códigos visuais. Para a professora, isso gera uma relação de pertencimento e desejo de consumo.
A tendência de frequentar sessões caracterizado como personagens ganhou dimensão global principalmente após Barbie, em 2023, quando os cinemas foram tomados por looks cor-de-rosa. Agora, o comportamento se repete com produções ligadas ao universo fashion e musical. O fenômeno está diretamente ligado à busca contemporânea por experiências imersivas e compartilháveis.
“É uma forma de ritual coletivo. Vestir-se como os personagens amplia a experiência, transforma o ato de assistir em participação ativa. É uma celebração estética e da cultura de massa”, pontua a professora. Segundo ela, o movimento também movimenta a economia, impulsionando marcas, coleções temáticas e produtos licenciados que acompanham os lançamentos.
Mais do que acompanhar tendências, a roupa passou a funcionar como extensão emocional da experiência cinematográfica. O fenômeno também revela mudanças na forma como o público se relaciona com o entretenimento. Em tempos de redes sociais, a experiência deixou de ser apenas individual para se tornar performance coletiva. Ir ao cinema já não significa apenas assistir a um filme, mas participar de uma comunidade estética temporária, compartilhando símbolos, referências e identidade.
Nesse contexto, O Diabo Veste Prada permanece como uma das obras mais emblemáticas quando o assunto é moda e comportamento. “O filme traduz a tensão entre moda como arte e moda como mercado. Ele mostra o poder simbólico das roupas e como elas podem definir hierarquias sociais e profissionais. A personagem Miranda Priestly é a personificação da moda como poder. Vivemos em uma sociedade que busca pertencimento através da estética, transformando consumo cultural em performance identitária. Moda e cinema se entrelaçam como linguagens que constroem sonhos, mas também refletem realidades sociais e culturais”, conclui.
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